sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Você é primeiro gente?

A maioria que eu conheço não é gente. Não é mesmo, apesar de ser. Desculpe o jeito Caetano de me expressar, é que é confuso mesmo. Vamos lá.

Lutas políticas no Brasil. Várias, cada vez mais aparentes, cada vez mais acirradas, com a troca de ideias nível quinta série cada vez mais frequente, diariamente. Vemos os principais portais de notícias (e os menos principais) e lá vem o esgoto, em especial nos comentários: filho disso, filho daquilo, porque você é feio, tua mãe isso, huehue, tinha mais é que isso, bem-feito quem mandou, seu feio seu bobo. Todos esses etcs. Tudo isso de que você já deveria estar cansado, mas não está. Eu estou. E há tempos.

Minha pergunta é simples: você é primeiro o quê? (Atenção: tem uma pegadinha e uma discussão sobre hierarquia escondida nisso, mas é para mais abaixo.) O que você é primeiro? Você é primeiro “de esquerda”, “de direita” ou gente? Você é primeiro “capitalista”, “comunista” ou gente? Os da quinta série mental vão, obviamente, fazer piada com o que chamam de “outro lado”: fulano é “comunista”, portanto não é gente. Vou fazer um pedido: a quinta série mental também fica de fora. A conversa é em tom leve, mas é séria. Você é primeiro gente?

Porque eu acho que é. Acho que sim. Acho que, primeiro, somos pessoas, gente, seres humanos (por favor, aí do fundão, sem conversas sobre a falência do humanismo ou o pós-humano: além do Humor Quinta Série, temos que aguentar a Concentração Nona Série). Somos coisinhas pequenininhas que estão fazendo mal umas a outras ao tentar denegrir, humilhar, desumanizar geral quem não se alinha com nossa decoração. Temos isso em todo o mundo, mas no Brasil esse comportamento grassa (está escrito corretamente, procure um dicionário). Para mim, é um problema central: sem resolvê-lo, não resolveremos outros.

Você é primeiro comunista, de esquerda, pai, mãe, filho, ou gente? Um pai que acha que é primeiro “pai” e depois “gente” pode passar sua vida impondo suas vontades à filha, sem entender por que ela tem uma namorada; ela “devia” namorar meninos, afinal é menina. Sempre no normativo, sempre sendo pai, nunca sendo gente. Sempre falando, nunca ouvindo (atenção à palavra “sempre”).

É um outro jeito de falar de empatia. Pode ser. Mas serve para outra coisa também: sair dos rótulos. Você é primeiro gente ou político? Gente ou policial? Gente ou farmacêutico? Gente ou professor? Gente ou branco? Tem vários, muuuitos, que acham que são primeiro brancos, e depois gente (estranho, num país em que só uma minoria consegue traçar sem ambiguidades suas raízes e etimologia). Que mais? Você é primeiro heterossexual ou gente? É primeiro brasileiro ou gente?

O Roger Waters, do Pink Floyd (para quem a minha geração, os anteriores e os posteriores pagam pau, escutando ou não) já disse que o principal problema é “Us and them”,  nós e eles. Falta esclarecer quem somos nos. Quem é você. Quem sou eu. Principalmente, quem você diz que você é. De qual lado do muro você está. E, um pouco mais preciso, por que ficamos colocando muros onde eles não existem e onde não existe a necessidade deles.

Eu, primeiro, sou gente. E é assim que vejo todos os outros seres humanos ao meu redor. Isso não torna mais fácil conviver com minha limitação: estou errado tantas vezes num dia que já nem fico mais chateado. Mas creio que essa não é uma visão errada. Somos todos gente. E uma bela parte de nós trata outros como se não fossem.

“Direitos humanos para humanos direitos”. Me define “direito”. Pai que paga os impostos e não abusa da vaga para estacionar, mas abusa dos filhos psicologicamente (ou fisicamente) está  valendo como humano direito? Amigo probo e irmão leal que despreza homossexuais por serem homossexuais é humano direito? Engraçado juntar conivência com intolerância. 1 + 1 = Brasil.

Você é primeiro gente ou torcedor? Alguns se veem primeiro como torcedores, vide tantos crimes vinculados a bandeiras, cada vez mais frequentes. “Define minha identidade”. Contra outros. Nós e eles, novamente.

Quem está colocando os muros é você. Não eu. Coloque-os, mas saiba: você é primeiro gente. Você também. Não brasileiro, nem político. Nem capanga, médico, bibliotecário, professor, adolescente, confeiteiro gato, youtuber mal-amado ou pós-socialite. Você é primeiro gente. Mas se você achar que é primeiro outra coisa, vai se portar sempre assim. Faça-se dois favores: 

1: deixe os outros serem como são, e assuma-se sem violentá-los.
2: trave suas lutas internamente, primeiro. Combata as ideias os outros, se necessário, mas sem violência. Combata os erros alheio que fazem mal ao povo, mas fique acima do mal-feito. Combater falta de educação com falta de educação, estranhamente, não deixa as pessoas mais educadas. Todos ao redor são gente. Difícil fazer isso?

Sim, é. Mas compensa. Vai deixar de ser preguiçoso.

domingo, 18 de maio de 2014

A arte da indignação ou: Por onde andam os artistas indignados?

A arte da indignação ou: Por onde andam os artistas indignados?


Pense num imortal, qualquer um. Pausa. Não falo de imortais de fardão. Os de verdade, sem votos nem chá. Sarney tá fora.
Beethoven, Bach, Picasso, Nelson Rodrigues, Lennon, Woody Allen, Monty Python, Einstein, Von Braun, Poe, Syd Barrett, Kubrick, Rodin, Lobato, Chaplin, Muhammad Ali, Nero, Hitler, Cristo, qualquer um. 

Mesmo.

Eternidade não é coisa pra qualquer um. É preciso ser bom (mesmo sendo mau) no que quer que se faça. De sonhos de padaria até capelas sistinas em larga escala, o que fica na memória são os realmente bons. 

Basta? Desconfio que não. 

Qualquer um dos citados acima vivem (no presente, sim. Se os chamei de eternos, não hei de me contradizer um par de linhas depois) períodos de desconforto gigantesco. Consigo mesmo, suas frustrações sexuais, seus governos, desgovernos, os pais, os reis, deficiências físicas, seus pares, seus filhos coxos, seus deuses vingativos, pneus furados, discos que pulam, o que quiser. 

Observe o fraterno e paciente leitor que dentre os citados há cientistas. Não acredito em cientista que diz que faz algo por amor à ciência. Cientista se alimenta de ódio por problemas não-resolvidos, por coisas ainda não entendidas. Paremos um nanossegundo para lembrar que se o que Copérnico, Tesla, Mendell e Darwin fazem não é arte, quero tele-entrega de eutanásia.

Isto posto, deste particular e astigmata ponto de vista, não consigo conceber como um Shakespeare sairia escrevendo sonetos a torto e a direito assoviando alegria por entre as ovelhinhas de Straford-upon-Avon. Até ele tinha problemas com a crítica, patrocínios e a coroa. Quis o destino que ele estivesse livre de celulares tocando no ato e papparazzi nas tabernas.

Mesmo que estes embates não tenham sido expostos, alguma ulcerazinha, um chifre não-confirmado, um rival lhe superando, cachaça demais, sono de menos, algo deve incomodar o artista. 

Se Charlie Brown tivesse um relacionamento estável com a garotinha ruiva, Schultz não duraria três tiras. Ficando nos quadrinhos, o deleite que Calvin nos traz é a indignação com coisas que nossos bigodes ou nossa menarca já apaziguaram. 
Garfield, talhado para não se incomodar com nada, produz às segundas suas melhores tiras, assim como nos dias que lhe falta lasanha ou quando Oddie rói seu sossego. 

João Gilberto, um dos menos politizados de todos os tempos, tem na imperfeição o seu Salieri. Ele crê que pode fazer melhor, sempre. E se indigna com ar condicionado, com papo na plateia, com "vaia de bêbado". 

Se Thomas Edison não tivesse contas a pagar, daria 99% de transpiração pra quê? 

Se a vida fosse fácil para Michael Jordan, ao ser encontrado em posição fetal no quarto com mais de 40 graus de febre, ele teria pego atestado médico. Foi pra quadra numa decisão e marcou 38 pontos.

Gostaria de passar um marca-texto laranja-neon no fato que não há aqui julgamento de caráter ou qualidade nas obras dos citados. Apenas o destaque para a eternidade de seus feitos. É dilacerante ver atores, cantores, escritores sumirem em plena vida por terem de algum modo, se acomodado. A vida está na contradição, na discussão, no debate. Atrito gera energia, lembram?

A falta de incentivo ao debate de ideias dá lugar ao que vemos em profusão: quem pouco lê fala menos ainda, não tem paciência para discutir e se perde com qualquer coisa que leve muito mais de 140 caracteres pra terminar.

É uma preguiça colossal. Não esqueçamos: somos uma civilização que corta microfones de candidatos à presidência pois eles não respeitam o tempo do outro falar. Somos obrigados por lei a usar cintos de segurança e proibidos de fumar em locais públicos fechados. Nossa preguiça de analisar o mundo à nossa volta nos leva a achar legal que se crie leis que nos façam mais civilizados. Cômodo, não?! 

Odeio cigarro, mas... o fato de eu ter mais neurônios que um louva-a-deus prepondera sobre o fato de que posso ser multado e, portanto, não deveria fazê-lo diante de quem não deveria. Mas é o tipo de discussão que os texugos encarariam como "apologia ao fumo", um belo rótulo e fim de papo (papear dá trabalho).

Nosso cérebro passa por um período de adaptação à atrofia por desuso. Soa cada vez mais surreal e agressiva uma voz contrária ao senso-comum. Cabe aos artistas o incômodo, já que são vozes (pincéis e canetas) que falam a mais pessoas. 

Ao se absterem do incômodo, vemos uns escrevendo seu próprio obituário ou entoando seu próprio epitáfio em cima de palcos mundo afora. Só há uma coisa inconcebível para o artista: a frouxidão. Artista tem seu lugar, e não é na claque. Ali, ele vira um mero mortal. E morre mesmo. 

Comentários na Internet: o esgoto (ou, Por um pouco mais de elegância)

Acho incríveis (e ao mesmo tempo me horrorizo com) os comentários na internet. Não autorizo comentários aqui, pelo mesmo motivo de fascínio e horror. Esgoto pode ser necessário, mas fede. Esse jogo de mostrar ou não mostrar o bas-fond diário tem suas perdas e ganhos, tanto para os dejetos quanto para os pensamentos paralelos. Separar as pessoas do convívio com seus dejetos é o que possibilitou/possibilita o aumento na taxa de expectativa de vida. Mas esconder o esgoto nos leva a esquecê-lo. Um dia ele tomará seu lugar ao sol e nos afogará em dejetos (em tempo, procure no Google sobre o hambúrguer feito a partir de esgoto. Ou seja, já começou. Bom, eu sou vegetariano).

Democracia é ótima, mas não pode ser o único critério. Poder escolher não significa saber escolher. Poder se expressar não significa saber se expressar. Por enquanto, carecemos (como textualizadores em massa) de elegância, respeito ao alheio e caridade (não, caridade não é coisa material). Quando nos tocarmos disso, permitirei comentários (para quantos dois leitores?, pergunta o sátiro em paralelo).

Por um lado, retirar a possibilidade de diálogo é medida parcial e pouco interativa (mas cada vez menos, depois explico). O que a rede mais propicia, com mais facilidade, é a troca de informações, a conversa. Esse é o lado do poder comunicar. Por outro lado, somos ignorantes semi-analfabetos e analfabetos funcionais, com pouco ou nenhum pensamento crítico além de um da moda (triste) e muita má vontade de aprender e mudar. Nos comunicamos, mas não trocamos e não melhoramos. Isto é, não sabemos comunicar. Até queremos, mas ainda estamos no nível de "se não concorda comigo, é meu inimigo". Isto tem um sumidouro, que é endêmico no Brasil: confundir ideias com pessoas. Falo disso mais tarde.

Democracia é algo necessário, cada vez mais. Oportunizar diálogo, trazer vozes à baila, oferecer soluções que passariam despercebidas se um olhar que não é o da maioria ficasse em silêncio. Mas não se deve confundir possibilidade e necessidade de alternativa e escolha com capacidade de escolher bem. Para que essa coisa de democracia funcione, torne-se plena, é preciso um outro passo, outra palavra genérica e difícil: educação. E se na primeira estamos tentando, um pouco conscientemente, trabalhar, na segunda falhamos miseravelmente, ainda.

Para quem ufana os rumos gerais (os do governo, por exemplo): há uma realidade monstruosa entre os números que os órgãos educacionais insistem em exibir com sorrisos tão brilhantes quanto falsos e a qualidade dos formandos, em todos os níveis. Formamos mais, publicamos mais, mantemos mais tempo na escola. Não entendemos o que lemos, não aplicamos o que decoramos, enviamos os filhos à escola para ficarmos livres deles durante quatro horas, não usamos a escola para preparar as crianças (e os adultos) para a vida.

Para quem critica os rumos gerais e acredita genericamente em "valorizar professores e a educação, os valores morais, a família e a boa educação": escola não é lugar para se aprender etiqueta. Também não deveria ser lugar para "socializar" ninguém. Vocês sabem para quê existe a escola? Eu sei, e é fácil entender. Há algum tempo, entenderam que a sociedade produz mais conhecimento do que é possível ser transmitidos pelos pais. Em vez deles apenas, são escolhidos especialistas para ministrar ensinamentos que serão úteis para a criança, no futuro, quando ela não for mais criança. "Socializar" tem lugar: em casa, com a família. E quando não tem? Outro papo, outra necessidade, outra solução. Escola não transforma potenciais marginais em cidadãos conscientes, simplesmente porque não foi feita (e não é administrada) para isso. Sua natureza e sua função são outras. O que ela deveria fazer, não faz: explicar aos alunos o que ele está fazendo ali (as pessoas, mesmo as pequenas, não são idiotas; explique algo e elas entenderão e, em geral, saberão cooperar) e prepará-los (com a ajuda consciente deles) com conhecimentos que não são úteis no momento (detalhe importante que nunca é mencionado). Para isso, bastariam poucas coisas, nenhuma delas ensinada. Quais? Fica para outra vez.

Povo que pode falar mas não sabe gera: torrentes de ódio, intolerância e barbárie, que descambam em linchamentos públicos (errados em qualquer ótica com ponderação e alteridade mínima), porque os agentes não ponderam, não consideram possibilidades, porque são apressados, e são apressados porque 1) aprenderam pouco a discernir detalhes importantes e 2) não aprenderam (ou quase não aprenderam) a projetar situações, a imaginar, a colocar-se no lugar do outro para, por exemplo, exigir um julgamento justo em vez de um linchamento ou uma punição que eduque o culpado em vez de matá-lo (sim, isso é possível, mas a preguiça e a falta de metaperspectiva** são enormes).

Educação gera gentileza. Mas não imediata ou automaticamente. E temos pressa demais, burros que somos. Ainda vivemos nas cavernas, na cabeça e no coração. Enquanto vivermos nelas, não abro espaço para conversa aqui. Quem sabe um dia. Ah, mas tem o Livro de Caras*** (expressão perfeita, Rafa). Bom, para isso é que servem (mal) as redes sociais. Aqui o espaço é meu (vide Google, claro :D). Passe o esgoto por fora de casa.

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** Metaperspectiva? Joga no Google.
*** Não entendeu?

sábado, 17 de maio de 2014

Música é (mas não devia ser) entretenimento

Olhe em qualquer site que precise classificar as atividades humanas e lá está. Junto com filmes, viagens, sei lá (não vou olhar no Google). Música é entretenimento. Pois é. Mas para quem?

Não para mim. Vejo as coisas de um jeito diferente e queria saber se mais alguém vê.

Uma pequena citação sobre como vejo o que é a música. Um cara muito velho, chamado Platão, num livro tão velho quanto ele, A república, considera certas coisas sobre a música, ou melhor, sobre a educação através da música:

É, decerto, por esta razão, meu caro Glauco, que a educação musical é a parte principal da educação, porque o ritmo e a harmonia têm o grande poder de penetrar na alma e tocá-la fortemente, levando com eles a graça e cortejando-a, quando se foi bem-educado. E também porque o jovem a quem é dada como convém sente muito vivamente a imperfeição e a feiúra nas obras da arte ou da natureza e experimenta justamente desagrado. Louva as coisas belas, recebe-as alegremente no espírito, para fazer delas o seu alimento, e torna-se assim nobre e bom; ao contrário, censura justamente as coisas feias, odeia-as logo na infância, antes de estar de posse da razão, e, quando adquire esta, acolhe-a com ternura e reconhece-a como um parente, tanto melhor quanto mais tiver sido preparado para isso pela educação. [Platão, a República, Livro III]

Não quero falar sobre a educação formal e a necessidade de música nas escolas (mais do que óbvia). Não só a música, mas todas as artes são necessárias em uma educação. Você não sabe por quê? Mas devia. Não concordo com o velho Ombros Largos aí de cima em várias coisas, mas sempre entendi que “a educação musical é a parte principal da educação”. Por quê? Porque “o ritmo e a harmonia têm um grande poder de penetrar na alma e tocá-la fortemente”. Pensando junto com a citação de um Beethoven fictício: “é como hipnose”. A música te mostra (em vez de apenas explicar) que há partes nossas que são intangíveis, que não estão à venda, que não conseguem aparecer e que são tão fundamentais quanto um prato de comida ou um teto. Partes como a necessidade de carinho, de fantasia, de bondade, de entendimento, de liberação. O objeto musical, ou melhor, o conduto físico que leva a obra de música (CD, mp3, vinil, fita magnética) muda, é objeto vendido. O que ele carrega é tão importante quanto é negligenciado. Tratado como entretenimento. Mas não é.

Escute só música ruim, com os mesmos padrões de ritmo, harmonia e melodia, e você se idiotiza, se diminui, se deseduca. Passe a expandir seu universo musical, e sua conduta melhora. Porque você começa a vivenciar outros ritmos, outras harmonias, outras formas de apresentar o que há no que chamamos de “dentro”. Mas não estou só falando do interesse “antropológico”, de colecionar experiência e saber sobre o alheio humano. Não gosto do interesse "antropológico". É coisa de quem chega perto da experiência para anotar e contar como foi, em vez de viver. O que Beethoven pode te ensinar? Bach? Mas também o que Sex Pistols, Tom Waits, Goran Bregovich, Tom Jobim, Carlos Gardel, Howlin’ Wolf, Antonin Dvorak, Cascaveletes, Madredeus, Andrew Bird, Slayer, Cartola? Essas peças da apresentação física do que chamamos música (a arte de encantar as Musas) passam cortando, invisíveis, por sobre nossos olhos tão atentos e burros e entram em nós. Sem pedir permissão. E nos hipnotizam. Às vezes, trazem sono, como para quem só escuta batidão sertanejo e vai a um concerto. E o melhor era que dormíssemos. Às vezes, irritação, como eu passo na rua quando estou sem fones de ouvido.  “Ah, mas eu escuto só batidão, “funk”, pop, pagodão, sertanejo supletivo, e sou uma boa pessoa”. É mesmo? Comece a escutar outras coisas e depois me conta se você não se tornou uma pessoa melhor. Porque ser (ou achar que se é) não basta. O mundo é sempre bem maior do que o que temos à frente.

Por mim, abriria uma escola de educação musical. Não de música. Porque ela já nos educa, já nos conduz. Porém, de uma maneira que não é a de simplismos do tipo “ah, escuta Heavy Metal, então é satanista”, “matou as crianças porque jogava Call of Duty”, “engravidou porque só ouve funk”. Isso é desculpismo do tipo “ache o culpado logo”. A música nos amplia (pode nos ampliar) os horizontes. O que fazemos com eles é decisão nossa.

E sobre essa tal responsabilidade, a música pode dizer algo? Bom, sabia que as canções podem falar de temas importantes, em vez de serem só a frase “eu quero te comer” dita de outro modo? Já escutou “Diamante de mendigo”, do Raul Seixas? Vai no YouTube e escuta.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ao mestre, com...




Dependemos dos outros em tudo. Somos egoístas, não vemos o quanto precisamos dos outros. Mas aprendemos tudo com os outros - às vezes até como aprender. O foco é por que a falta dos bons exemplos (dentro mas principalmente fora de aula) está dificultando muita coisa boa.

Acho que a coisa mais difícil de lembrar é que todos são professores. Sempre, a cada minuto do dia. Você deve achar que não - afinal, é melhor tocar piano numa espelunca, como diz o ditado. Profissão mal paga - no Brasil (talvez possa fazer uma pesquisa sobre o salário médio da categoria, se bem que já deve haver). "Eu não quero se professor, tá louco".

Azar seu, filho, já é.

Com quem você acha que aprendeu a ser torcedor? A se portar como homenzinho ou menininha? A andar de skate, comer com o talher certo e escolher o vinho pra ocasião, entre todas as coisas? Existe aula para isso? Não, embora alguns cursos profissionalizantes estejam se dando bem. Mas ninguém te ensina a ser humano, porque todos te ensinam a ser humano.

Todos nós ensinamos e aprendemos o tempo todo. E antes de você se embevecer com tantos professores ao redor, nos amigos, na família e no dia a dia, lembre que você é um deles. Um professor. Que ensina alguém através desse material tão importante mas tão desvalorizado: o exemplo.

Ok que cada um aprende o que quiser. Mas seu exemplo conta.

Conhecem a história dos dois irmãos? Tinham um pai cafajeste, que traía a esposa e a espancava. Bebia e criva confusão. Batia nos filhos, brigava com os vizinhos. Um imprestável.

Seus dois filhos cresceram. Um se tornou uma cópia do pai: violento, enganador, covarde, bulhento. O outro se tornou uma boa pessoa, ajudava os outros, se educou, procurava aceitar e resolver as dificuldades em vez de fugir ou reagir com violência.

Os dois filhos morreram. E ali do outro lado fizeram a mesma pergunta: “por que você foi assim?” Os dois deram a mesma resposta:

"Com o pai que tive, que mais eu podia ser?"

Seu exemplo pode ser do teor que for: alguém vai tirar bom proveito disso, mesmo que seja para não fazer o que você fez.

Ia ser legal que a partir disso pudéssemos pensar melhor sobre o que fazemos (e sentimos, e pensamos). Mas aprender as lições demora um pouco mais do que decorá-las: precisa fazer algo.

Achou piegas, bobo, ingênuo? Faz o seguinte: tenta ser melhor, com você mesmo e com os outros (todos os outros) para ver como é difícil. Eu estou tentando. E você?

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Educação - os culpados apresentem-se

Incrível o quanto não pensamos na educação. Mais incrível ainda se pensarmos no quanto precisamos dela.

Com qualquer coisa, podemos pensar "por que" e "para quê". No caso da escola, também.

Quando você estava na escola, algum professor já explicou por que você vai lá? Por que teus pais te obrigam a ir? E na faculdade/universidade? Alguém já explicou? Não? Pois deviam. As coisas não ficam mais fáceis de suportar quando a gente sabe a causa, mas pelo menos entendemos o processo e podemos,  por vezes, interferir, nem que seja para não ficarmos na pior.

As pessoas têm de ir à escola porque o montante de conhecimento que a sociedade acumulou ao longo da história é maior do que a família consegue fornecer a uma criança; não só: esse conhecimento é tido como necessário para a criança, para o futuro cidadão. Seus pais não são matemáticos, mas tanto eles quanto você precisam. Para a escola, portanto.

Esse é o "por que" da escola. Vamos ao "para quê".

O "para que" aponta o motivo futuro de você estar fazendo uma coisa. Certo, estudar é necessário, vão te exigir certos conhecimentos depois. Mas, além disso, o que você vai fazer com o que aprendeu? É aí que entra a parte transformadora da educação. É aí que você pega o que aprendeu e faz uma coisa que não estava nos planos, inova, chega a um resultado inesperado, novo, que soluciona problemas ou abre novas perspectivas. Um lugar realmente ótimo.

Creio que até nos preocupamos com o "por quê", embora sem muita efetividade nas realização. Entretanto, nos descuidamos muito do "para quê". "Para que estou fazendo isso?", "onde vou chegar fazendo o que faço?". Realmente não vemos que nossa futura economia, nosso futura segurança, nossa saúde futura depende de como lidamos com quem está na escola hoje.

Pequena história para ilustrar, um pouco de biografia. Quando cheguei em Florianópolis, fui lecionar em duas escolas. As duas tinham vários problemas, de todas as ordens que você pode imaginar. Em uma delas, uma aluno complicado, típico malandro, não preguiçoso, mas enganador, esperto, vivia se esquivando de tudo. Mais tarde, ouvi falar que estava levemente envolvido com o tráfico. Triste.

Saí da escola. Fui dar aulas em outro lugar, e comecei a participar de um grupo de auxílio a moradores de rua. Depois de um tempo - bastante na verdade - encontro esse ex-aluno morando na rua. Não estava se sentindo mal, continuava tão esquivo, malandro e sorridente quanto sempre. Morava na rua porque achava melhor do que se esforçar. Para achar isso melhor, os exemplos que recebeu não devem ter sido os melhores. E uma hora, com certeza, se perguntou "pra quê?": para que continuar a ir na escola, se tinha o que queria na rua?

Culpa dos professores? Culpa dos colegas, das más influências? Dos pais? Das decisões deles? Qual foi a causa?
  • A causa está em todos os lugares. Em todas as coisas que citei acima, não é possível descontar uma mais que as outras.
  • Temos professores bem preparados, mas também temos gente que faz mal ao sistema de ensino, por várias causas.
  • Temos alunos ótimos, mas também temos alunos que fazem da sala de aula um ambiente impossível de se trabalhar.
  • Temos escolas boas e bem administradas; mas também escolas sem direção, onde se salvaguardam posições, em vez de se criarem oportunidades de crescimento.
  • Temos pais amorosos e presentes - fisicamente, mas, mais importante, na consciência de seus filhos, como bons exemplos; mas temos pais que ensinam suas crianças a usar e abusar do mundo, das pessoas. Pessoas deseducadas que não ensinam seus filhos a filtrar o que o mundo oferece, apenas a reagir de determinado modo e a só pensar "é assim que eu sou, o mundo que me ature". Por estranho que possa parecer, é o mesmo tipo de pensamento que aumentou os problemas ecológicos que temos hoje.

De quem é a culpa? De ninguém. Focar em culpados - e ainda mais em uma causa só -  em geral provoca julgamentos demais, e a gente sempre acha quem culpar.

Melhor pensar em soluções, que incluam todas as partes. Porque nenhuma delas (nem uma das sete bilhões delas, e contando) está alheia. Os posts seguintes serão sobre cada um dos tópicos da lista.